segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Isso não é uma história sobre o amor


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      Diante do frio que sinto, vejo o céu escuro e cheio de nuvens. A chuva cai tão delicadamente quando você me falando bom dia. Vou fazer café enquanto você toma banho.
      Quando você chega, traz seu ar quente consigo, me fazendo ficar confortável apesar da temperatura abaixo do normal. Você me me esquenta com seu beijo doce sincero, me fazendo sentir único, especial. Não vejo a hora de você chegar pra gente assistir um filme numa tarde tão gélida.
      Sinto meu coração esfriar com a sua partida, essa que faz perceber que talvez "eu não seria eu" sem você. (Isso é ridículo, mas parece tão natural falando de mim.)
      Não abro mão dos meus sonhos, não abro mão dos meus planos, não abro mão de você, de nós. Logo nós, que passamos por tanta coisa. Não entendo porque isso algum dia tem que acabar. Mas que esse dia demore, muito e muito. Ainda há muito o que viver.
      Segure minha mão, não a solte nunca mais. Faça-me rir com seu olhar tão singelo quanto as águas do mar. Sua pele tão macia quanto uma flor no parque. Vem, vamos comigo ao parque. Vamos descansar do mundo, vamos fazer o tempo parar. Como uma fotografia. Eu já havia me esquecido como é bom fazer o mundo parar para nós. Devíamos repetir isso todos os dias, a todo momento.
      Certo dia, ao acordar, vou tomar meu café, e percebo um bilhete.


"Querido, tu sabes como é bom 
parar o tempo quando estou com você. 
Estou indo, mas prometo voltar. 
Não me faça perguntas. Não me ligue. 
Não me esqueça. Eu te amo."






(Texto escrito pelo Bigorna no dia 20 de Junho de 2014)

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Por onde andam as pessoas interessantes?


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      Depois que terminei meu namoro, senti que as coisas deram a devida reviravolta que eu tanto proclamava. De 4 a 6 semanas foi o suficiente pra poeira baixar e chegar ao limbo. O limbo é aquele lugar calmo, não muito raro, que todo mundo tem dentro de si. Um sótão que não é escuro, não abriga histórias de terror, não tem nada a ver com os filmes. Passei um bom tempo lá e confesso que tava até feliz por não ter que me distrair com ninguém a não ser eu. Depois de todo fim a gente precisa de um tempo pra cuidar da gente, botar a cabeça no lugar, sair por aí pegando uma infinidade de gente – papo chato de autoafirmação, aposto que você me entende. E depois de tudo isso, a gente para lá no limbo pra tomar uma cerveja.

      De uns meses pra cá eu senti nada. Sentia nada, nadinha. Nem por uma, nem por dez das pessoas que jantaram comigo – e não é exagero, foram dez mesmo. Mexicano, japonês, italiano, comida no parque, jantar na casa dela, McDonald’s no shopping, rodízio de pizza, crepe na Voluntários, cachorro-quente num aniversário, sobremesa aqui em casa. A cada pessoa nascia aquele interesse curioso que era rapidamente sucedido pela preguiça de se dispor, de ter que contar toda a minha história, de ter que voltar pro grande jogo das conquistas.

      Não me entenda mal. Eu sempre gostei de conhecer gente. Sempre gostei de ter um coração meio vagabundo que se encantava fácil, que era só achar quem tratasse bem ou batesse um pouco que ficava grudado no celular esperando resposta. E agora nada. Nadica. A maior demonstração disso foi quando superei o medo irrefreável de tirar o last seen do Whatsapp. Não tenho esperado mais resposta de ninguém e tenho tido pavor de responder alguém que não sejam os meus amigos. Ontem, por exemplo, eu peguei um ônibus lotado e um senhorzinho puxou assunto. Contou da vida, perguntou da minha. Monossilábica, meu senhor, é assim que ela anda. Nem escondi a intolerância e tratei logo de botar dois fones no ouvido pra me esconder do desconhecido. Reparei que a gente sempre faz isso na vida. A gente sempre abafa o que tenta incomodar a apatia com algum som familiar, com alguma memória preenchida ou com a desculpa de que a gente tá sempre ocupado e não pode prestar atenção. Eu, assim como um monte de gente, não quero sair da inércia, não quero sair daquele limbo sentimental a menos que alguém me puxe.



      E isso me leva à outra questão: por onde andam essas pessoas que costumavam puxar a gente? Já falei sobretiming e sobre um monte de ingredientes pra equação, mas nem exijo amor, não. Uma história à toa, por menor que seja, só pra não lidar com o egoísmo da solidão. E nada de aparecer alguém que dê match na vida real como a gente dá no Tinder, ninguém que faça a gente ter vontade de continuar um papo tranquilo sem cobrança, mas com vontade de continuar. Quando falo em gente interessante, me refiro única e exclusivamente a quem se conecte com a gente de verdade, para além do mundo virtual e dos telefones da vida. Outro dia perguntei pra um amigo se ele sentia que as pessoas interessantes tinham sumido e ele disse que sim. Mais uma corja de amigos recém-separados e na mesma faixa de idade responderam o mesmo. E isso me faz pensar se a gente é que ficou desinteressante ou se o limbo emocional – nossa casa constante com o passar dos anos e dos relacionamentos – acabou tornando a gente mais exigente e maduro. Ou se realmente anda difícil encontrar conexão emocional numa época em que os aplicativos de pegação, a variedade de opções e a falta de tempo costumam transformar em instantâneos os relacionamentos que já estavam se tornando efêmeros.

      Daqui do limbo as coisas vão de mal a monótonas. Cada novo encontro mostra que a barra de compatibilidade do last.fm tá quebrada. E eu já não sei mais se é a gente que deixou a coisa da conexão emocional se apagar por conta do momento, da apatia, da vontade interna de manter as coisas caladas ou se o mundo não tem proporcionado bons encontros com gente interessante – que deve andar escondida. Ou nós mesmos nos tornamos desinteressantes pela apatia. A única coisa que sei mesmo é que o Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido como hoje. Enquanto eu escrevia esse texto, um trecho dele martelava na minha cabeça, no meu limbo, na minha falta de interesse: “Socorro, alguém me dê um coração, que esse já não bate, nem apanha”.



Eu só queria falar que, quando li esse texto, percebi que nunca alguém descreveu tão bem meus sentimentos em um momento. Talvez seja uma situação um tanto quanto "clichê", mas não tem como não se identificar com o que é descrito. Eu precisava compartilhar isso. Achei genial.
E não, Arnaldo Antunes nunca fez tanto sentido na minha vida.



Esse foi um texto escrito por Daniel Bovolento e extraído do site Entre Todas As Coisas. Todos os direitos são reservados ao site e ao escritor. Para abrir a página original do texto, basta clicar aqui.